Sejam Bem Vindos!!

"E se não morreram, viveram felizes até hoje, diz o conto de fadas. O Conto de fadas, que ainda hoje é o primeiro conselheiro das crianças, porque foi outrora o primeiro da humanidade, permanece vivo, em segredo, na narrativa. O primeiro narrador verdadeiro é e continua sendo os contos de fadas." (Walter Benjamin)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Contar uma história é um presente que se dá!

Como esta semana antecede o dia das Bruxas, o famoso Halloween, pesquisei muitas histórias de bruxas e contos de encantos e assombrações. Descobri e redescobri uma mais interessante do que a outra. Resolvi escrever uma nova história pensando nas criança bem pequenas e que pode ser contada com fantoches, muita imaginação e criar muita interação neste momento.

Esta história, contarei neste sábado (dia 30/10/10) lá na praça do Côco em Barão Geraldo por volta das 11:00 h.

Então ...com vocês..meu presente!

Fada Lara e Bruxa Gotucha


Fotografia por Nani em seu jardim encantado!

Onde existem fadas existem bruxas, e nesta história, a fada Lara e a Bruxa Gotucha eram vizinhas que viviam na mesma floresta,  umas dez árvores de distância de cada uma. Árvores enormes de floresta, mas para uma bruxa ou para um fada isso não é muito distante.
A Fada Lara era a Fada mais alegre que vivia por ali. Super animada na culinária, fazia biscoitos e docinhos tão deliciosos que sua fama ia longe , todos  diziam que  suas iguarias davam alegria na boca. Já os que a  Bruxa Gotucha se arriscava a fazer, davam alergia, isto sim!
A bruxa Gotucha embora não cozinhasse bem, era super gulosa e vivia comendo as guloseimas da Fada. Lara vivia trancando suas iguarias num armário com todas as trancas encantadas, e isso  dificultou tanto satisfazer o apetite da Bruxa que ela ficou furiosa.
Gotucha que agora só podia sentir o cheiro das coisas boas de Lara, resolveu fazer um feitiço usando  folhas de espirradeira. Aconteceu, que todos que comiam das guloseimas de Lara ficavam espirrando sem parar, até Lara espirrava sem saber o que estava errado.
-AAAATCHIMMMMM! AATCHIMMM!! – se ouvia por toda a floresta, parecia uma epidemia. Mama mia!
Na floresta tinha um passarinho de rabo vermelho,  amigo da fada que contou para ela do fetiço que Gotucha espalhou em sua culinária.  O segredo era fazer a Bruxa Gotucha experimentar do seu próprio feitiço - disse ele para ajudá-la.
Então, Fada Lara conseguiu comprar suco de espirradeira na loja da curandeira D. Serena  e com ele fez o doce que a bruxa mais gostava: doce de batata-doce, enroladinho como brigadeiro.  Deixou na cozinha como se fosse por esquecimento.
Gotucha, gulosa como quê, logo apareceu e devorou os docinhos com sua bocona de bruxa. Ficou com a boca cheia que  nem podia mastigar...que coisa feia! Mais feio ainda foi quando ela começou ....
 – AAA...schin...ããã....snif.... – fez Gotucha por o dedo no seu longo e torto nariz, mas não segurou por muito tempo e começou a...eespirraaarrrr!!!!
- AAAATCCHHIIIIMMMMMMMMMMM! AAATCCCHHIIIIMMMMMMMMMM!
Que  terrível ver uma bruxa espirrar de boca cheia. Tinha pedaço de docinho voando por todo lado!! E Gotucha saiu voando para sua casa para que ninguém visse esse vexame e ficou por lá um bom tempo ou quem sabe até se mudou.
Desde então Fada Lara parou de espirrar e voltou com a sua culinária nota dez, com gostosuras que enchem de alegria a boca da gente. Hummm!
 E foi assim..."Ã ã...Atchim! (Gente, isso é só um resfriado!)"... que acabou esta história!
Fim.

Elaine Cristina Villalba de Moraes 
Espero que tenham gostado, me inspirei na história de Sonia Robatto, "Alegria na Boca". 

domingo, 24 de outubro de 2010

Ótimo livro para pais que "boiam" e filhos que "chovem".

"O Menino que Chovia" é um livro de Cláudio Thebas que sempre gostei por ser uma história toda contada em prosa poética, estilo que eu gosto muito de me apresentar narrando histórias. Mas este livro não serve apenas para uma bela apresentação num momento de contação de histórias, aliás é um livro excelente para os papais e mamães de hoje..."Qualquer semelhança com a vida real....não..... é mera coincidência"...
Levei este livro numa aula de" Psicanálise de Pais" para meu  professor de psicanálise Lacaniana, Durval Checchinato. Ao ouvir atentamente a história deste menino, gostou tanto que recomendou a todos os alunos  um exemplar do livro.  É que, a  história ilustra de forma muito divertida, como os pais de hoje estão "boiando" diante das "chuvaradas" de suas crianças.


Estamos diante de uma realidade onde os pais ficam fora o tempo todo, os cuidados com os filhos são terceirizados e as crianças estão perdidas tentando se encontrar, muitas vão passar para a fase  adulta sem ser crianças e outras nem deixarão de ser crianças pelo resto da vida, o que quer dizer em termos psicanlíticos que estas não terão suas pulsões educadas nem orientadas.

Para os leigos,  falar em pulsão pode ser complicado, mas eu tentarei ser simples. Os animais tem instinto pois já nascem e vão se virando pela natureza encontrando seu alimento e procriando do mesmo modo como à milhares de anos e sua evolução já carrega isso no DNA fica fácil. Nós humanos não temos nossos "sistema operacional" carregado desta forma.  Ele vai sendo carregado aos poucos e nós precisamos de muita informação para direcionar nossa pulsão a fim de garantir nossa sobrevivência de forma mais saudável, mais plena e isto inclui saber viver em sociedade.

Segundo Checchinato autor do livro "Criança, sintoma dos pais", uma criança que chora, "Chove tempestade" é uma criança que sofre pois não está conseguindo se inserir no mundo e a sua pulsão está desordenada.

Na maioria dos casos quando as crianças são rotuladas de problemáticas, não é a criança que tem defeito, o que ela é, é um efeito, o resultado da dificuldade dos pais e adultos em mostrar as leis que regem a vida humana em sociedade. Não se trata de falar aqui só de limites...é muito mais do que isso. É também ajudar a criança a saber quando dizer "obrigado",  "por favor"  e "bom dia" fazendo-a reconhecer a existência das outras pessoas.

Muitas vezes para se conviver com as crianças e suas dificuldades as escolas mandam os pais procurarem um especialista, psicólogos, neurologistas e até psiquiatras, para consertarem seus defeitos (hiperatividade, TDA, agressivas, depressão, idéias fixas) e assim vestem uma bóia para não se afogarem em meio a tantas tempestades e as crianças passam tomar remédios que futuramente podem comprometer a sua personalidade, trazendo um comportamento fabricado, aliendado do seu ser como sujeito.

A verdade é que elas sofrem por não saberem o lugar que elas ocupam nas suas famílias, quando elas passam a mandar na casa...e os seus pais não sabem como fazer, pois se sentem culpados por não permanecer em casa e acabam deixando fazer tudo o que querem, quando na verdade uma criança pra se sentir amada precisa que seus pais digam "Não" quando for preciso, sem remorsos mas com a convicção do que é o melhor pra eles, que é assim que eles vão aprender a conviver em sociedade e amar...Deixar fazer tudo pode ser abandono, comodismo, ou narcísico,  mas não pode ser amor.

 Muitas vezes a criança ainda não está em condições de compreender explicações, nesta hora um 'não' deve ser firme para que a criança  entenda que "não se faz tal coisa", ou "isso não se faz" e é importante que a criança saiba que ela não está obedecendo apenas para agradar o papai e para a mamãe, mas que existe o Outro e assim ela vai começando a introduzir na sua realidade a sua posição de filho, irmão, aluno, amigo..uma pulsão ordenada leva a criança a se ocupar de atividades infantis, de se alegrar, de participar de jogos e brincadeiras, aprender a ganhar e a perder e muitas outras coisas para se aprender a viver socialmente.

Para exemplificar, um dia desses, estava  no consultório do meu médico homeopático e junto comigo uma mãe com sua filha lindinha de uns 5 anos. Simplesmente a menina não sabia como  ficar quieta, nada podia ficar parado à sua volta, falava só em voz alta e não respeitava ninguém. A mãe nada dizia, como se aquilo fosse uma coisa natural...pensei "hoje a mãe fica calma achando tudo lindinho, mais tarde vai dizer..."-Onde foi que eu errei?". A menina tirava os móveis de lugar e estava mudando a sala toda. Olhei para a menina delicadamente, sorrindo perguntei "Aqui é sua casa?" , ela respondeu  "não", então disse a ela que não poderia mudar os móveis das casas das outras pessoas, só os da casa dela. Ao que ela procurou os olhos de sua mãe para ver se havia alguma dúvida. Pra minha sorte a mãe confirmou que ela não poderia mesmo fazer aquilo. A menina parou, mas não voltou nada no lugar... mesmo a mãe pedindo ela não fez. Depois pediu um iogurte para a mãe, e pra minha surpresa a  mãe carregava um isopor cheio de coisas para que nada faltasse àquela criança... mas isso já é outro assunto. O que eu fiquei sabendo é que ninguém aguenta quando ela aparece por lá...mas ninguém pode com ela....Será ? Eu penso que ela está pedindo isso o tempo todo! Os pais precisam entender como os filhos pedem para ser ordenados.
Este livro é bom e eu recomendo! Por amor as nossas crianças, nossos futuros homens e mulheres, não "boiemos", mas ensinemos nossas crianças à "nadar" .

Elaine Cristina Villalba de Moraes

domingo, 17 de outubro de 2010

Griots homenageam as crianças no HC Unicamp e trazem Cães Terapeuticos

Neste sábado de Outubro (16/10/10), uma idéia dos Griots Contadores de histórias do HC Unicamp, que foi crescendo aos poucos, acabou se transformando numa grande homenagem pelo mês em que se comemora o dia das crianças. 



Eu de Fada Azul e a belíssima
Golden Retriever da ONG ATEAC

Pessoalmente, como coordenadora deste grupo, fico muito satisfeita, pois é um dos melhores grupos de contadores de histórias de hospital que já se formou. 

Griotada do HC e de outros hospitais que estavam
presentes, contribuiram muito para toda esta festa!!

Nossos ideais em comum, paixão por contar histórias e ver mais alegria e esperança nos rostos das crianças e das pessoas, nos motivam verdadeiramente a se organizar para a realização de ações como esta.




Vejam alguns momentos desta tarde de sábado...nem parecida um hospital!! Mas a idéia era essa mesmo!




Bela e a Fera cantaram
e encantaram todo o hospital!!
 

Cleonice Diretora dos Griots com
 "Macaquinho sai daí" de Bia Bedran
 

Fera, Bela e a Fada Azul  
 





Eva Griots - narrou com graça
várias histórias
  entre elas "O macaco e papai deus".


Apaixonados por histórias, fizemos uma tarde inesquecível onde a fantasia das histórias pôde ecoar como música até os leitos mais afastados do grande pátio da pediatria.








A Griota Maria Luisa contou
uma história sobre ecologia
muito interessante e atual. 
  
Atraímos muitos pacientes dos outros andares que se debruçaram ao redor da varanda que circunda o pátio do hospital, curiosos e ao mesmo tempo felizes por saberem que estávamos ali para eles.



 




Griots Egidio contando suas histórias
com seu jeito especial.


 










Acabava uma história...começava outra!
Contei a história do
"Papel que não queria ser um simples papel"
de Luciano Pontes




Foram dias de organização e muito trabalho
para que tudo desse certo como imaginávamos
Só que saiu melhor do que isso!! Foi maravilhoso!!







Contamos até com a participação de funcionários importantes do HC neste evento, como a Enfermeira Diretora da Infectologia, Sonia Dantas com sua peça de fantoches "Beleza Interior"...muito aplaudida por sinal.
Eu participei também como a personagem Bia e foi uma experiência e tanto poder fazer um trio assim...


Sonia Dantas do CCIH/HC, Sandra e Nani
na peça "Beleza Interior"

Bom foi ver de perto!!

Para completar a alegria, convidamos a ONG ATEAC que levaram seus cães terapêuticos e encantaram as crianças, acompanhantes e muitos funcionários.

 
Final da peça a Bruxa fica boazinha
depois recebe seus cães bem tratados
 
Foi a primeira vez que os pacientes do HC da Unicamp receberam estes visitantes de pêlos , focinhos e de rabinhos balançando. Os atores da ONG iniciaram com um super teatrinho. Tinha uma Bruxa má que maltratava os seus cães, e uma linda fada verde que ajudou na transformação salvando os cachorrinhos maltratadas e dando um novo coração para Bruxa que passou a amar os seus bichinhos. No final eles foram as estrelas da festa.



Criança entra em contato com o Yorkshire Badu
e aproveita o momento para agradar o cãozinho 

Foi muita emoção poder estar presente e testemunhar como as crianças ficaram surpresas e muito felizes tocando nestes animais tão lindos e dóceis!!




  




E foi assim que tudo aconteceu, uma idéia, uma união, muito trabalho e comprometimento. Com apoio da administração do Hospital da Unicamp, muitos amigos meus de  trabalho, apoio dos Griots é claro, todo esse sonho foi possível!!  


E esta História entrou por uma porta e saiu pela outra
 e quem se inspirou com tudo isso
 que faça outra festa como esta!!
 FIM!
Elaine Cristina Villalba de Moraes 



quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Programação Praça do Côco - mês das Crianças



Outubro literário em Indaiatuba

Está acontecendo em Indaiatuba uma programação com muita histórias. É o Outubro literário e conta a participação da minha amiga Paula Negrão que realizará até uma Oficina para todos os interessados na arte. Vale a pena conferir!

sábado, 9 de outubro de 2010

Encontro Temático - Os Contos de Fadas e Psicanálise


Palestrante: Elaine Moraes
Dia 13/10/2010 – às 20:00 h na Associação Campinense de Psicanálise (apenas para alunos e membros da ACP.)
“A criança  que  pensa  em  fadas e acredita  em fadas age como um deus doente, mas como um deus.
Por que embora  afirme o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica.
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não se sabe que o  pensamento não é um ponto qualquer.”
(Fernando Pessoa, poemas completos de Alberto Caieiro)

A psicanálise que sempre se interessou pela arte, muito contribuiu para compreendermos, que para o psiquismo humano, não importa se falamos de uma realidade concreta ou de uma fantasia. Ao romper esse conceito de verdade pura, nos mostrou que toda apreensão da realidade é permeada pelo inconsciente e pelo desejo. Em 1911 Freud cita que...”Por meio da interpretação dos sonhos, estaremos cada vez mais próximos do rico material da poesia, dos mitos, dos usos de linguagem do folclore, concebendo esses materiais  como manifestações do inconsciente...” e Lacan postulou... ” O inconsciente é estruturado como uma linguagem..”
Com a experiência de Contadora de histórias e pequisadora desta arte sob a ótica da psicanálise, este encontro pretende expor uma reflexão sobre os Contos de fadas de ontem e de hoje, qual a sua importância na formação psíquica humana e o que é que conta um conto.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Contador de histórias no contato com o paciente infantil

Sempre que eu volto de um encontro de formação de contadores de histórias voluntários para hospital, fico sempre a refletir e pensando nas dúvidas e angústias dos novos candidatos ao iniciar um trabalho como este. Com minha experiência de contadora e coordenadora posso dizer o quanto este trabalho  faz a diferença para uma criança hospitalizada e o quanto faz crescer os que praticam o voluntariado, mas sei também o quanto os novos voluntários sofrem por insegurança, não só na narração ou escolha das históiras mas principalmente na questão da aproximação com o paciente infantil em seu iníco desta nova empreitada de contador de histórias num hospital.


Nani no Palacio dos Bandeirantes em outubro/09 - O Gov. José Serra fez uma grande homenagem aos voluntários da Saúde do Estado de São Paulo.

Num hospital as horas não passam, tem o desconforto de não estar em casa, de não poder fazer ou comer o que se quer, além das dores que se tem que suportar. Nós chegamos lá com vigor, sorrindo, mas é um gesto delicado, não pode ser aquela alegria que destoa, que choca. Vamos nos aproximando com delicadeza e uma certa auto confiança, como quem sabe que tem algo muito bom para oferecer àquela criança, ou àquele acompanhante que está ao seu lado. Em nossas malas levamos belas histórias, jogos, mas também levamos nossos ouvidos, é preciso antes de tudo de ouvir uma pouco aquela criança, conhecê-la e também porque todos somos contadores de histórias, as crianças também tem as suas e devemos escutá-las. Às vezes ela só quer conversar um pouquinho.

Um bom contador de histórias, deve ler muito, conhecer várias histórias, saber tirar de um livro tudo o que for possível desde a ilustração e sentir profundamente a história em sua alma, mas álém disso, para levá-las a um hospital ele precisa ainda aprender muitas coisas sobre a arte da aproximação e do contato com a criança.

Comigo na primeira vez foi fácil, a criança é que me pediu para contar histórias, mas com o tempo a gente vai vendo que temos que desenvolver outras formas, por isso resolvi falar um pouco sobre este tema.

Temos que lembrar que cada criança ou pessoa é singular, por isso não há fórmulas mas sempre temos que começar de alguma maneira não é mesmo? Às vezes pensamos que somos tímidos demais e que não vai rolar nada, às vezes nossa energia contagiante que usamos em outros lugares pode não funcionar em um hospital...então como fica?

Normal... seja você mesmo!! Faça como gente grande, se apresente, pergunte o nome da criança, faça-lhe um elogio do nome, do sorriso ou de seus olhos. Eu gosto de começar assim, chamando atenção para as coisas boas que aquela criança me faz sentir. É assim que eu me aproximo pois acredito que é preciso que alguém de fora diga àquela criança algo de bom, sem que ela seja olhada como uma paciente. 

Depois de um clima de aproximação podemos apresentar nossos livros, deixar a criança escolher, mas é comum com a experiência dos anos, já na conversa com a criança descobrirmos qual tipo de leitura ou narrativa agradará mais aquela. Aí o tempo passa que a gente nem vê, fica uma delícia entre uma história e outra, uma conversa que gira em torno da história e vai longe. Se o difícil é se aproximar, depois o difícil, vai ser sair.

Algumas vezes acontece que o contador vai ouvir um "Não" da criança e aí a experiência conta muita, mas o mais importante é interpretar este "Não" para as histórias.

Tem certos "Não" que são por pura timidez. Isso a gente  pode ajudar e ir quebrando o gelo com jeitinho, uma brincadeira, uma mágica, deixando a criança curiosa, conversando com a mãe, contando histórias para a criança que está ao lado. É divertido e muito gratificante quando a criança se abre em sorrisos no final e fica sendo seu fã, seu amigo. Ouvi dizer que um garoto de 11 anos que não falava com ninguém no hospital desde de que fora internado, foi se abrir justamente com uma Contadora de histórias que também era tímida no início de seu trabalho. 

Outras vezes é um "Não" por que a criança tem uma certa dificuldade social e isso é comum por vários motivos: Falta de costume, de cultura diferente ou por simplicidade. Deformidades, síndromes, mas é comum como elas nos surpreendem depois que entram em contato com Contadores de histórias e outros voluntários. Podem se tornar mais sociáveis que antes do período de internação e ficam muito amigos e isto ajuda na sua recuperação e às vezes é fundamental para a sua evolução como pessoas apesar de suas limitações. Num caso incrível que eu conheci a garotinha tinha 3 anos não falava, não ouvia e tinha muitas deformidades, mesmo assim todos insistiam em falar e estar com ela, quando saiu do HC foi para outro abrigo, lá recebeu mais apoio profissional e por fim aos 11 anos ela era totalmente social, entendia as pessoas e se fazia entender e ainda queria ajudar no cuidado com as outras criança do abrigo. É lindo testemunhar todo este crescimento, me faz pensar que quando ninguém desiste, quando se investe na criança acreditando na interação só se pode esperar resultados deste tipo.

Continuando sobre os nãos, tem aquele "Não" que é":- Hoje eu não quero ouvir histórias por que estou com dor, voltei da cirurgia, acabei de sair da UTI" - então dizemos que fica para uma próxima vez. Deseje tudo bom pra ela, para os acompanhantes e sempre use o bom senso. Oferecer é educado, insistir é fala de educação. Falamos com carinho, baixinho palavras de força e esperança e deixamos a criança em paz...acredite ela está lá para se recuperar, precisa de repouso, aquele descanso pode ser o alimento que ela está precisando naquele momento.

Tem 'Não" que é pra dizer que ele quer brincar de outra coisa...Tenha sempre um jogo, uma brincadeira...No meio da brincadeira vá contando umas histórias curtas, quando você ver já estão pedindo outra. 

Um "Não" é bem raro tá! Neste jogo o "sim" de conta uma história sempre foi o vencedor! Mas é bom estar preparados.

Às vezes, não é só com histórias que fazemos milagres...uma vez foi com bolinhas de sabão. A criança no  colo da mãe não queria, nem prestava atenção no meu livrinho.  Então comecei a soltar bolinhas em silêncio. A criança sorriu para elas, se mexeu no colo da mãe...mais um pouquinho ela desceu, foi para chão, ficou em pé e começou a querer pagá-las...aos pouquinhos já estava correndo e dando risos de alegria. Quando vejo, lágrimas nos olhos da mãe que me disse: "- Fazia três semanas que ele não sorria mais e nem saia do meu colo!"...Depois disso eu sai do hospital meio como a bolha de sabão, flutuava mas com uma grande interrogação: Como é que pode uma bolinha ter feito isso para aquela criança? Uma simples bolinha de sabão! Parece tão pouco...mas essa experiência faz a gente mudar por dentro...É por esta e outras que este trabalho me move, me surpreende, me dá sentido. Que seja assim também pra você.

Nani
Coordenadora dos Contadores de Histórias Griots/HC

12/09/2010